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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Resenha do livro "Adolescência" de Contardo Calligaris


Esta resenha foi um trabalho solicitado no meu curso de Psicologia. Achei o livro muito interessante e bem atual. Ele serve a todas as idades, traz uma idéia diferente da adolescência, uma outra visão e, no meu ponto de vista, muito coerente. Vale a pena ler.


O livro é bem atual e nele Calligaris aborda a adolescência de uma forma diferente, como uma condição especial em que os jovens modernos passam entre a infância e a fase adulta. Em alguns momentos tratados como crianças e em outros como adultos, os jovens passam por um período de transição em que nada marca o seu início ou fim. Os adolescentes já têm discernimento para perceber alguns valores que começam - além de ficar mais claros – a fazer parte da lista de preferências. Esses valores compreendem sucesso no plano financeiro/social, sexual/amoroso e ainda, seus corpos e suas mentes já atingiram um bom nível de maturação, o que lhes permite buscar esses sucessos, porém a sociedade ainda lhe impõe algumas restrições que acaba criando efeitos colaterais e um comportamento, de certa forma rebelde. Esta fase é um produto da sociedade moderna.
A idealização da adolescência acabou por influenciar também os adultos que querem a todo custo prolongar o período ao máximo, visando cada vez mais se parecer com os jovens. A dificuldade de se encaixar nos padrões de “feliz adolescência”, faz com que se iniciem os períodos depressivos por não conseguir ser “feliz” a atingir os objetivos.
A adolescência não existe no mundo natural, corresponde culturalmente à puberdade, que é um fenômeno produzido pela Natureza, que pode ser definido como o amadurecimento sexual do ser.

Calligaris propõe cinco tipos diferentes de adolescentes:

Os adolescentes gregários são jovens reunidos em certos grupos ou comunidades que exigem um “algo em comum” e onde todos são reconhecidos como iguais. Calligaris comenta sobre uma lei em um dos estados dos EUA que, em certos lugares, permite que jovens de 16 anos possuam licença para dirigir mas proíbe que os mesmos dirijam o veículo com outros jovens até completarem 18 anos. Segundo essa lei, jovens em bando são potencialmente perigosos, pois transgridem para afirmarem-se entre si.

O adolescente delinqüente, quando não consegue ser reconhecido no mundo dos adultos, usa da ignorância e violência, gritando, quebrando coisas, colocando fogo em casas, para tentar ser levado a sério. Os adultos ficam numa situação bastante difícil já que não tem muita coisa a fazer a respeito disso, pois se ignorar, eles acabam fazendo cada vez mais delinqüências e promovendo a rebeldia exagerada e acabam sendo mais violentos pois acham que não estão sendo levados a sério e, se reprimir demais, darão aos adolescente a certeza de que seus gestos não foram interpretados o que provocará mais violência novamente. Por outro lado, Calligaris também trata da delinqüência com conseqüências sexuais. O jovem, não sendo sexualmente aceito como adulto, resolve se impor pela sedução mais violenta para tentar ser aceito como igual.

O adolescente toxicômano, dependente de drogas. Os adolescentes de hoje, herdaram os resquícios da geração “paz e amor” (e sexo e drogas), e vêem isso como uma forma de rebeldia. A droga, além de possuir um certo encanto entre os jovens, tem uma promessa de “satisfação garantida”. Em relação ao fumo e álcool, os jovens vêem como uma maneira de se aproximarem do modo de vida dos adultos que eles conhecem e que de certa forma admiram.

Os adolescentes que se enfeiam são os jovens que inventam um certo padrão estético que desafiam a sociedade. Estão fora do padrão que a sociedade impõe. Segundo Calligaris, esta pode ser uma reação ao medo de não ser aceito por sua beleza nos padrões normais, assim, o adolescente “enfeia” a própria imagem para não correr o risco de ser considerado feio normalmente. Ele se tornou feio e sabe disso, foi por opção e não “feio por natureza”.

Os adolescentes barulhentos são aqueles da “geração MTV“, os adolescentes que transmitem a sua rebeldia através da música, imaginam suas vidas como em filmes ou clipes de suas bandas ou artistas favoritos. Sempre buscando uma maneira de chamar a atenção pelo barulho.Primeiramente, os adultos idolatram as crianças, por serem criaturas naturalmente felizes e por sentirem certa necessidade em deixá-las plenamente felizes em tempo integral. Vêem nelas uma maneira de se perpetuarem, visto a sociedade individualista à qual vivemos, ao longo dos anos, uma luz de esperança na escuridão que é a vida moderna. Porém, aos poucos o olhar que está sobre as crianças vai se desviando para os jovens, por serem mais maduros e mais próximos dos adultos. Os adultos agora vêem que se conseguirem tornar estes jovens permanentemente felizes, protegidos e despreocupados (como as crianças) seria mais gratificante para eles, visto que seria uma felicidade mais próxima do que eles sonham. Com isso o jovem vai se encaixando nesta adolescência idealizada culturalmente e tornando sua moratória, objeto de inveja de crianças e adultos.

Frases e trechos que se destacam no livro:


Um adolescente um pouco sem rumo, estranhando seu próprio comportamento, paradoxalmente desafiador e arrependido, pára você na rua e fala: "Estou só passando por uma fase agora. Todo o mundo passa por fases, não é?" Alguém talvez reconheça sua voz. É Holden, o herói do romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger.
Aproveitando-se da situação, atrás e ao lado dele se aglomeram pais e mães de adolescentes. Eles também perguntam: "Então, é assim? Vai passar? É só uma fase?"
Resposta de bolso, caso Holden e os pais o parem na rua: "Não. Não é apenas uma fase. Por isso, nada garante que passe".
A adolescência é o prisma pelo qual os adultos olham os adolescentes e pelo qual os próprios adolescentes se contemplam. Ela é uma das formações culturais mais poderosas de nossa época.
Objeto de inveja e de medo, ela dá forma aos sonhos de liberdade ou de evasão dos adultos e, ao mesmo tempo, a seus pesadelos de violência e desordem.
Objeto de admiração e ojeriza, ela é um poderoso argumento de marketing e, ao mesmo tempo, uma fonte de desconfiança e repressão preventiva.
A Holden e aos pais pode-se responder, assim, que os jovens de hoje chegaram à adolescência numa época que alimenta uma espécie de culto desse tempo da vida. E caberia, então, tentar explicar como isso nos afeta a todos.
O adolescente se olha no espelho e se acha diferente. Constata facilmente que perdeu aquela graça infantil que, em nossa cultura, parece garantir o amor incondicional dos adultos, sua proteção e solicitude imediatas.
Querem que ele seja autônomo e lhe recusam essa autonomia.
Na sociedade pré-moderna, a divisão social era relativamente pacífica, estabelecida. Hoje a divisão social é móvel e a posição de cada um depende, em princípio, do reconhecimento dos outros que se consegue ou não. É normal que ninguém esteja satisfeito com sua situação e que cada um tente melhorá-la.
Quanto mais o adulto se manifesta rigoroso e quer impor sua autoridade recorrendo a uma tradição, tanto mais ela a enfraquece e se enfraquece com ela.
O fato é que a adolescência é uma interpretação de sonhos adultos, produzida por uma moratória que força o adolescente a tentar descobrir o que os adultos querem dele.
O comportamento adolescente é considerado no mínimo anormal, por parecer (e de fato ser) transgressivo, quando comparado ao padrão adulto (o padrão confesso dos adultos).
O adolescente, descobrindo que a nova imagem projetada por seu corpo não lhe vale “naturalmente” o estatuto de adulto, é acuado a agir.
O adolescente transforma assim sua faixa etária num grupo social, ou então num conglomerado de grupos sociais dos quais os adultos são excluídos e em que os adolescentes podem mutuamente se reconhecer como pares.
Outros grupos pedem que a senha de acesso à comunidade seja uma marca duradoura – tatuagem, cicatriz – ou um tipo específico de modificação corporal.
Os jovens gregários transgridem por se bastarem, ou seja, por se reconhecerem entre pares, dispensando os adultos.
Quanto mais o comportamento for transgressor, tanto mais fácil será o reconhecimento: a transgressão demonstra afastamento dos adultos, adesão e fidelidade ao grupo.
“Delinqüência” não é uma palavra excessiva, embora de fato pouquíssimos adolescentes se tornem propriamente delinqüentes. Mas existe uma parceria de adolescência e delinqüência, porque o adolescente, por não ser reconhecido dentro do pacto social, tentará ser reconhecido “fora” ou contra ele – ou, o que dá na mesma, no pacto alternativo do grupo.
Tolerar não é uma opção, visto que o jovem atua justamente para levantar a repressão. A tolerância só o forçará a atuar com mais violência.
Os adolescentes de hoje são os descendentes de uma geração que explicitamente ligou o uso das drogas a todos os sonhos de liberação e revolução (pessoal, sexual, social, etc.) que ela agitou e subseqüentemente abandonou e recalcou.
As drogas que são proibidas para todos têm mais charmes ainda.
Além de serem proibidas (um charme em si), podem representar uma maneira de enriquecer pelo trafico, desmentindo a moratória.
Se a adolescência não existisse, os adultos modernos a inventariam, tanto ela é necessária ao bom desempenho psíquico deles.
Os adolescentes pedem reconhecimento e encontram no âmago dos adultos um espelho para se contemplar. Pedem uma palavra para crescer e ganham um olhar que admira justamente o casulo que eles querem deixar.

Referências
CALLIGARIS, CONTARDO. A Adolescência. São Paulo. Publifolha. 2.000.

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